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O número de crianças que acedem à internet aumenta com a idade: 22% entre os 3 e os 5 anos, 62% entre os 6 e os 8. Mas será isso preocupante?
Cristina Ponte, professora da Universidade Nova e coautora do estudo “Boom Digital? Crianças 3 - 8 anos e ecrãs” (transformado em ebook), diz que é preciso contrariar “um certo discurso do medo e do pânico que muitas vezes grassa na comunicação social”.
“Há muitos aspetos positivos na internet que podem ser benéficos para crianças mais pequenas”, como por exemplo, vídeos, músicas e jogos “que estimulam a imaginação, o prazer estético, estimulam uma certa resiliência, uma certa capacidade de lidar com a frustração, favorecem aprendizagens”, afirma na Manhã da Renascença.
Numa época em que grande parte das famílias têm “lares tecnologicamente equipados”, é importante que os pais “tirem partido destes recursos” e acompanhem os primeiros passos das crianças na internet, acrescenta.
Há duas maneiras de entrar no mundo tecnológico: “Com o acompanhamento dos pais, a tirarem partido das possibilidades que a net oferece em termos de música, de filmes, de desenhos animais de que [as crianças] gostam. Ou podem fazê-lo como uma pura ‘babysitter’ eletrónica, em que os pais deixam a criança em frente ao ecrã sem fazerem nenhuma intervenção”.
Na opinião de Cristina Ponte, “é importante” que o “acompanhamento por parte dos pais [se faça] desde os primeiros tempos” e “que esses usos sejam tema de conversa por parte dos pais: o que é que viste, vamos ver em conjunto, há alguma coisa que te incomodou que tenhas visto?”
Isto, “porque muitas vezes os aparelhos são partilhados” e as crianças podem, “sem o desejar”, ter acesso a conteúdos dos pais, vendo “coisas desagradáveis e inapropriadas para a sua idade. É importante que os adultos tenham conhecimento disso”, sublinha a professora da Universidade Nova.
Cristina Ponte coordenou o estudo divulgado esta terça-feira pela Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) sobre a relação das crianças com os ecrãs. Diz a investigação que 38% das crianças entres os 3 e os 8 anos acedem à internet com muita regularidade e que o fazem, sobretudo, para ver desenhos animados, filmes, jogar e ouvir música.
O estudo sucede à publicação Crescendo entre Ecrãs. Usos de Meios Eletrónicos por Crianças (3-8 Anos), uma análise pioneira em Portugal sobre usos de meios eletrónicos por crianças dos 3 aos 8 anos, baseada num inquérito nacional e na observação de 20 famílias com crianças que acedem à internet.
O Dia da Internet Mais Segura é hoje assinalado em mais de 130 países. O lema deste ano (e do estudo) é “Cria e partilha com responsabilidade: uma melhor Internet começa contigo”.
“Podemos dizer: por uma internet mais segura, crie, partilhe, acompanhe os seus filhos com responsabilidade”, remata Cristina Ponte na Renascença.
A propósito deste dia, o Centro de Internet Segura lançou uma série de recursos online, divididos por idades, onde divulga dicas para navegar de forma mais segura.
Sofia Rasgado, coordenadora deste centro, lembra que o comportamento na internet varia com a idade. “Os jovens arriscam muito mais, se calhar os adultos arriscam menos, e os seniores às vezes não têm tanta consciência dos perigos, porque também não aprenderam”, diz.
Ainda assim, há uma problemática que a responsável considera transversal a toda a população: as “fake news”. “A consciência de pensamento crítico também tem sido trabalhada por nós para apelar ao olhar com olhos abertos para a informação e para as mensagens que partilhamos na internet”, revela.
“Muitas vezes esquecemo-nos que não só somos consumidores da informação disponível na internet, somos também produtores”, sublinha Sofia Rasgado, que deixa alguns conselhos: pensar antes de publicar, pensar no que se lê e ter sempre presente o contexto original do que é partilhado.