Molenbeek. Por dentro do bairro dos terroristas em Bruxelas
19-11-2015 - 08:50
 • Teresa Abecasis , em Bruxelas

Molenbeek-Saint-Jean é uma das 19 comunas em que se divide a capital belga e tem estado nos últimos anos ligada aos principais ataques terroristas na Europa. A reportagem da Renascença esteve no local e falou com os moradores.

Explosões em quatro comboios, em Madrid, em 2004. Um tiroteio no museu judaico, em Maio do ano passado. O massacre no jornal "Charlie Hebdo", em Janeiro deste ano. O ataque falhado num comboio que fazia a ligação entre Amesterdão e Paris, em Agosto. O terror em Paris, na sexta-feira, 13 de Novembro.

O que têm em comum estes actos? Em todos eles, as autoridades ligaram os atacantes a Molenbeek. Na região, vivem cerca de cem mil pessoas, 70% das quais são muçulmanas.

Polícia e jornalistas invadem o bairro

Terça-feira, quatro dias depois dos ataques em Paris. O ambiente nas ruas de Molenbeek é tenso, mas só entre moradores e jornalistas. Há um em cada esquina e todas as ruas vão dar à Place Communale.

Por volta das quatro horas, vêem-se muitas crianças a regressar da escola, sozinhas ou acompanhadas. A maior parte das senhoras que passa tem a cabeça tapada com um véu e desvia a cara quando vê uma câmara. Os homens têm um ar descontraído, que se transforma em desconfiado quando os abordamos.

Na Place Communale, estão montadas tantas câmaras que o difícil é não ser filmado. No número 30 desta praça, vive Mohammed Abdeslam, irmão de Ibrahim, um dos rapazes que se fizeram explodir na rua em Paris, e de Salah, outro alegado terrorista envolvido nos ataques de sexta-feira, que está a ser procurado pelas autoridades.

O próprio Mohammed foi preso pelas autoridades no fim-de-semana, mas acabou por ser libertado, depois do interrogatório. À comunicação social, garantiu desconhecer as ligações radicais do irmão.

"A minha família, e eu, estamos muito perturbados com o que aconteceu. Nós descobrimos pela televisão, como muitos de vocês. E nunca pensámos que um dos meus irmãos pudesse ter qualquer ligação a este ataque", disse.

À volta da Place Communale há muito comércio. Lojas de roupa, mercearias, farmácias. À palavra "jornalista", os comerciantes respondem: "não falo francês" ou "não tenho nada a dizer". Aparentemente, ninguém conhece Mohammed, que trabalha no equivalente à Câmara de Molenbeek, nem a família, tal como também nada sabe de qualquer ligação a movimentos radicais.

Mohammed Benneisa queixa-se de que os jornalistas afastaram os clientes. Está à porta da loja da filha. Com os acontecimentos dos últimos dias, o pai ficou preocupado e decidiu vir acompanhar de perto as movimentações no bairro.

"Nós vamos como qualquer outra comunidade", assegura, desvalorizando as notícias. "Eu sou muçulmano, e com muito orgulho."

Atira as palavras e fica à espera de uma reacção. Não mora no bairro, mas vem aqui com frequência - à mesquita e às compras. Perguntamos-lhe se nota alguma inclinação mais extremista. "Eu vejo os radicais na televisão. Aqui, não sinto nada."

Na véspera, uma operação policial tinha fechado algumas ruas de Molenbeek. Não foram feitas detenções, nem encontradas armas. Mas a operação vai continuar.

Da criminalidade jovem ao terrorismo

Na câmara da comuna de Molenbeek, a presidente Françoise Schepmans vai recebendo os jornalistas, à medida que vão chegando. Fala com um órgão de comunicação social de cada vez e tem um ar visivelmente cansado quando recebe a Renascença. A fila não pára de crescer.

Schepmans assegura que o posto de trabalho de Mohammed Abdeslam não está em causa, mas hesita quando lhe perguntamos porque é que as investigações de tantos ataques terroristas vêm sempre dar a Molenbeek. Suspira.

O problema da região, explica, está muito ligado a questões sociais e económicas. "Nós temos aqui muita pobreza e níveis altos de desemprego." Praticamente um terço - 30% - dos que aqui vivem não trabalham, sendo que a percentagem é ainda mais alta entre os jovens.

A governante acredita que estas são condições ideais para os radicais actuarem. "Eles são ouvidos pelos jovens que estão ligados à pequena criminalidade. Os que foram para a Síria são considerados heróis entre eles", lamenta.

E como se combate isto? Schepmans fala numa maior aposta na segurança e em políticas sociais de integração. Em negociações recentes com o governo federal da Bélgica, foi acordado que as forças de segurança iriam colaborar mais com a polícia local.

Na opinião de Françoise Schepmans, a maior parte dos muçulmanos está bem integrada na sociedade belga. Vive em Molenbeek há 50 anos, quase toda a vida dela. "Nunca pensei que pudéssemos chegar a este ponto."

"Vivermos todos juntos não é a mesma coisa para todos"

Na montra de uma das farmácias da Place Communale, está uma folha com a palavra "Molenbeek" impressa em maiúsculas. O "o" foi substituído pelo símbolo da paz. Faz parte de uma iniciativa organizada por várias associações da comuna, que convocaram os habitantes para uma vigília, ao final do dia na quarta-feira.

Uma dessas associações é a "Médecine pour le Peuple", uma organização que presta consultas médicas a pessoas de zonas mais carenciadas. Têm uma clínica no centro da praça. Yasmina Ben Hammou é uma das terapeutas que ali faz voluntariado.

Yasmina tem 39 anos, é muçulmana e entusiasma-se a falar sobre Molenbeek. Na sala de espera da clínica, levanta a voz para falar. Tem tanto para dizer em tão pouco tempo.

Começa por sublinhar que os muçulmanos condenam todos os actos terroristas. Depois, acrescenta que os jovens da região são esquecidos pelos poderes políticos, deixados sem nenhuma perspectiva de futuro ou esperança. Termina denunciando que lhes querem impor uma maneira de estar na vida que não aceita a diferença.

"Vivermos todos juntos, não é a mesma coisa para todos", explica. "Eu sou muitas pessoas: sou jovem, sou muçulmana, sou mulher, sou marroquina." E, muitas vezes, a conjugação de todas estas identidades não é bem aceite. O mesmo está a passar-se com os jovens, argumenta. Não são aceites como são e, por isso, procuram alternativas.

Mas que diferenças inaceitáveis são essas? Yasmina dá o exemplo do véu, que não usa. Sublinha que é uma opção pessoal e defende que todas as mulheres devem ter a liberdade de escolher, sem se sentirem obrigadas a usar ou serem proibidas de o fazer.

"O véu é visto como uma barreira, afasta as pessoas. Se uma mulher quiser usá-lo, terá mais dificuldade em encontrar emprego", aponta.

As velas de Mohammed

Centenas de pessoas reuniram-se na Place Communale de Molenbeek, na quarta-feira, na vigília em memória das vítimas dos ataques de Paris e do terrorismo. A iniciativa decorreu sob fortes medidas de segurança, com toda a gente a ser revistada à entrada da praça.

No chão, dezenas de velas desenharam o nome da região. Os residentes estão cansados de ver Molenbeek associado ao terrorismo. As operações policiais para encontrar os culpados pelos ataques de Paris continuam. Na cidade, o nível de alerta está no terceiro grau, o que quer dizer que a ameaça de um ataque terrorista é considerada "séria, provável". O Governo subiu de 220 para 520 o número de militares a vigiar os edifícios públicos.

No número 30 da Place Communale, Mohammed Abdeslam surge à varanda e coloca várias velas acesas à janela. Em que pensará?