As eleições do próximo domingo podem ser uma viragem política inédita no arquipélago da Madeira. Ainda a viver as ondas de choque da investigação judicial que fez cair o governo de Miguel Albuquerque, o PSD/Madeira quer evitar o que tem conseguido: abandonar o poder.
Desde o 25 de abril que é o PSD que governa na Madeira mas os sinais não são animadores para o atual governo regional. A queda do executivo madeirense foi em tudo semelhante ao fim do governo de António Costa: uma investigação judicial visou o chefe de governo e Marcelo Rebelo de Sousa dissolveu o Parlamento. Mas há uma diferença capital: ao contrário de António Costa, Miguel Albuquerque é novamente candidato.
Prova de fogo para PSD inevitavelmente só
Se até agora o PSD se apresentava a votos com o CDS/Madeira, o cenário das coligações apresenta-se mais austero para os social-democratas. Ninguém quer dar a mão a Miguel Albuquerque. Os partidos da oposição rejeitam colar-se a um candidato investigado por suspeitas de corrupção e usam este argumento como arma política na campanha que entra agora na reta final.
Nas últimas eleições regionais, o PSD ficou aquém do seu objetivo, perdeu a maioria absoluta e acabou por celebrar um acordo com o PAN. Agora vai ter de valer por si ou governar em minoria como tem feito Montenegro na Assembleia da República.
Mais do que isolado no panorama político madeirense, Miguel Albuquerque tem ainda de superar umas eleições em que não conta com a bênção do líder do seu partido. “Posso dizer que, se fosse eu, talvez tivesse uma decisão diferente”, disse Luís Montenegro num debate para as legislativas depois do terramoto político que abalou a Madeira.
Albuquerque seguiu a sua linha, usou da autonomia do PSD/Madeira e ignorou o presidente do PSD, que haveria de se tornar primeiro-ministro. Recandidatou-se à liderança do PSD/Madeira, venceu, e agora vai novamente a votos no domingo.
Geringonça madeirense
As dificuldades adensam-se para o PSD porque a oposição sabe que esta é uma oportunidade irrepetível de acabar com a hegemonia laranja na Madeira. O PS vai ensaiando um discurso de entendimentos à esquerda, a preparar um cenário em que possa formar uma coligação de esquerda.
"Eu acredito que é possível", resumiu Paulo Cafôfo que está de regresso à liderança do PS/Madeira e atira para segundo plano Sérgio Gonçalves, que sofreu uma pesada derrota em setembro do ano passado. O ex-presidente da Câmara do Funchal e ex-secretário de Estado das Comunidades volta à Madeira para tentar dar aos socialistas a primeira vitória numas regionais madeirenses.
Com o tema da corrupção a entranhar-se pela campanha adentro, o Bloco de Esquerda também fala "num projeto alternativo à esquerda", o PAN diz "temos de nos entender" e PCP não vai a jogo (para já). Estes partidos podem ser a peça fundamental para virar o tabuleiro, tal como aconteceu no Continente em 2015, numa jogada ensaiada por António Costa.
O JPP (Juntos Pelo Povo) é também um partido a ter em conta uma vez que tem conseguido eleger alguns deputados e pode fazer parte da solução.
Papel do Chega que foge de Albuquerque
Este é uma nova prova para o Chega. O partido de André Ventura tem crescido em todas as eleições a que se apresenta, e tal como aconteceu nas últimas legislativas pode tornar-se politicamente incontornável para a estabilidade.
Mas, tal como o resto da oposição, o Chega cola o PSD/Madeira à corrupção e à cedência aos interesses dos grupos económicos do arquipélago. “Não nos damos com corruptos”, atirou André Ventura durante um jantar-comício do partido no Algarve no final de Abril. Na altura traçou uma "linha vermelha".
Resta saber o que fará o partido se for a diferença entre dar o poder ao PS e poupar o executivo e Miguel Albuquerque. O atual presidente do Governo Regional da Madeira admitiu esta semana acordos com o Chega.
À Renascença, um dirigente do Chega é claro: "Com este Miguel é impossível", resume referindo-se ao líder do executivo madeirense desde 2015. Mas as contas fazem-se este verão, quando os resultados estiverem apurados e chegar o momento de decidir.