08 jul, 2022 - 19:21 • Isabel Pacheco
Portugal deve preparar-se para anos difíceis por causa do impacto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. O alerta é do historiador José Milhazes, que, esta sexta-feira, durante mais uma edição do "Conversas da Bolsa" no Palácio da Bolsa, no Porto, criticou a “falta de clareza” dos políticos sobre as consequências económicas e sociais do conflito na vida dos portugueses para os próximos tempos.
“As pessoas têm de ter consciência que a situação na Europa vai agravar-se muito”, alerta. “É este problema que penso que as nossas autoridades não prestam a devida atenção e não preparam as pessoas. Do ponto de vista político, isto claro, pode não trazer dividendos eleitorais, certamente. Mas, quando as coisas se complicarem, aí, os dividendos eleitorais vão ser, ainda, muito menores”, defende.
Para José Milhazes, a proliferação dos extremismos em países europeus é outro dos perigos. “Uma realidade que já existe”, lembra o, também, escritor, mas que pode vir a ser uma tendência crescente.
“É precisamente nestas situações de crise que essas forças vêm ao de cima”, lembra o escritor.
"Em Portugal já as temos, mas se os partidos do dito laico governamental continuarem a desiludir os eleitores e a manter o país estagnado, aí, não há dúvidas que as forças extremistas vão aumentar fortemente a sua representação quer a nível parlamentar, quer nas manifestações na rua.”
Para além do impacto económico e político do conflito, há, ainda, o risco de “cansaço humanitário”, avisa José Milhazes, que defende, por isso, um “maior esforço” das autoridades para um acolhimento “mais célere” de quem chega ao nosso país fugido da guerra.
“É preocupante que, nesta altura de verão, as pessoas que ofereceram as suas casas aos refugiados estejam a pedir para que saiam. Isto é perigoso”, lamenta José Milhazes, que lembra que é preciso que as “instituições reajam a estes problemas”.
Mas, tudo vai depender de quanto tempo a guerra vai durar. Um conflito que não parece ter “um fim à vista”, e que se prepara para ser “longo, muito longo”. Uma coisa é certa: “nesta guerra não há vencedores”, garante o historiador, que aponta como uma das consequências desta guerra a possível desintegração da Rússia.
“Se a Rússia, eventualmente, vencer do ponto de vista militar, as consequências económicas vão ser funestas. Aí, a Rússia pode entrar numa crise interna e não excluo a possibilidade de o país se desintegrar”, admite.
“Um cenário que não queria que acontecesse”, confessa, até porque o país liderado por Putin “tem a maior quantidade de ogivas nucleares do mundo o que pode ser uma tragédia fatal para a humanidade”.
O comentador de política externa que viveu mais de três décadas na Rússia foi o convidado do “Conversas na Bolsa” dedicada ao conflito Rússia/ Ucrânia, no Palácio da Bolsa, no Porto. Uma iniciativa da associação comercial da cidade.
A Rússia lançou, em fevereiro, uma ofensiva militar na Ucrânia. A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas e políticas a Moscovo.