12 set, 2023 - 14:07 • Ana Fernandes Silva
Sónia Veludo é natural do Porto e professora há 26 anos, seis dos quais foram passados a mais de 300 quilómetros de casa. A viver em Espinho, deu aulas em Lisboa e até no Alentejo. Este ano letivo, conseguiu regressar a casa e agora vai dar aulas de Educação Especial no Cerco do Porto.
Em entrevista à Renascença, a docente, que começou por dar aulas de Inglês, conta que o tempo que esteve deslocada foi difícil. "Perdi muita coisa", lamenta Sónia, que acabou por ter problemas familiares e de saúde, consequências da distância, que a obrigava a ausências prolongadas e viagens constantes.
O esforço não compensava a nível financeiro. "Ao fim do mês não sobrava dinheiro. Eram duas rendas para pagar, mais as despesas das deslocações".
Só ao fim de 15 anos de carreira é que Sónia conseguiu tornar-se efetiva... mas longe de casa, em Lisboa. "Tive a opção de fazer uma especialização e efetivar graças a isso", explica. Foi assim que se tornou professora de Educação Especial.
Em Lisboa, e apesar de já estar "nos quadros", a situação "não mudou grande coisa": o Quadro de Zona Pedagógica (QZP) de Lisboa "é imenso" e "pode ir até à zona de Setúbal", onde Sónia acabou por dar aulas nos últimos dois anos. "Não temos grandes certezas sobre onde vamos ficar", lamenta.
O cansaço acabou por se reflectir na saúde: "as deslocações semanais" do Alentejo para o Porto "tiveram as suas consequências". "Como tinha o meu filho pequeno vinha semanalmente ao norte. Conduzia quatro horas para cada lado e a cervical não aguentou tanta condução", admite.
Neste ano letivo 2023/24, Sónia acabou por conseguir vir para mais perto de casa, mas pelos piores motivos: conseguiu mobilidade por doença. Está, agora, colocada numa escola a cerca de 20 quilómetros de casa, o que representa uma mudança positiva, especialmente a nível familiar.
"Tenho aqui o meu filho e o meu pai com quase 90 anos. A nível pessoal foi uma opção difícil de tomar, porque já criei laços noutras zonas, umas das consequências de estar deslocada". Não se arrepende. "Sinto que estou a fazer o que devo por causa do meu filho e do resto da minha família", remata.
No final do dia, o que mais custa, diz Sónia, é sentir que a profissão já não é valorizada hoje em dia como era em anos passados. "Quando comecei as coisas eram diferentes, foram piorando gradualmente", desabafa.
A precariedade e a falta de perspectivas de evolução não ajudam. "É muito dificil a progressão. Nunca chegarei ao topo da carreira", lamenta.
Apesar das dificuldades, Sónia nunca pensou deixar a carreira. Admite, no entanto, que o filho já fez "esse apelo várias vezes", mas "o amor à camisola fala mais alto". "Quem corre por gosto não cansa... mas cansa, cansa muito".