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Imigrantes mais ricos causam "pressão brutal" sobre a habitação em Lisboa, admite vereadora

26 set, 2024 - 22:31 • Lusa

Na Assembleia Municipal, Filipa Roseta afirmou serem necessárias "políticas de habitação fortes para aguentar, seja no apoio à renda" ou na cedência de fogos municipais.

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A vereadora da Habitação na Câmara de Lisboa, Filipa Roseta, admitiu esta quinta-feira que a imigração, em particular de quem tem poder de compra acima das famílias portuguesas, criou uma "pressão brutal" na capital portuguesa.

A "imigração duplicou desde 2018 no país" e essa afluência de estrangeiros "está fundamentalmente concentrada em Lisboa", admitiu a vereadora social-democrata, salientando que o acesso à habitação na capital é dificultado pela "pressão maior das transações que se fazem", principalmente por "estrangeiros com poder económico muito superior a quem cá está".

"Isto está a empurrar as famílias para fora do mercado" e "temos de ter políticas de habitação fortes para aguentar, seja no apoio à renda" ou na cedência de fogos municipais, uma prioridade do executivo, que tem como meta colocar nove mil casas no mercado na próxima década, afirmou.

Filipa Roseta falava durante o segundo debate da Assembleia Municipal subordinado ao tema "Imigração em Lisboa: que futuro?".

Afirmando que, "entre 2022 e 2023, a população imigrante aumentou 37%, o que corresponde a 30% da população total residente na cidade", a autarca reafirmou o desejo de manter a capital como uma "cidade global, multicultural e diversa".

"Quem diga o contrário está a destruir o nosso ADN" e a "ser ignorante", disse Filipa Roseta, prometendo: "vamos continuar a ser o que somos, não vamos ser diferentes".

No financiamento às associações que apoiam os imigrantes, Filipa Roseta destacou as novas políticas de apoio de longa duração, com prazos até seis anos.

Segundo a vereadora, a partir de agora, essas associações vão ter "uma estabilidade de financiamento previsível", uma solução que vai ajudar a cumprir a estratégia municipal de "erradicar a pobreza, promover a educação de qualidade e ter territórios e comunidades mais sustentáveis".

Nos bairros municipais, que têm 66 mil residentes, apenas 3.700 são imigrantes (a maior parte de Cabo Verde), mas tem havido uma estratégia de reforço dos apoios e o "departamento do projeto de intervenção comunitária triplicou o número de ações e projetos comunitários", numa lógica de "política de reconhecimento da diversidade cultural dos bairros".

Na Assembleia Municipal participou também António Vitorino, antigo diretor da Organização Internacional das Migrações e atual dirigente do Conselho Nacional para as Migrações e Asilo, que defendeu que "os desafios de integração são micro, jogam-se ao nível do local de residência" e do ensino da língua de acolhimento.

Lembrando que os dados mais recentes apontam para 1,044 milhões de imigrantes no mundo, António Vitorino disse que Portugal está "em linha com o resto da Europa, com 10 a 12%" de estrangeiros no total da população.

Contudo, frisou que a pressão migratória é particularmente sensível nalguns locais, como é o caso de Lisboa, e defendeu que os "recursos públicos e os esforços das autoridades têm de ser sensíveis a esta diferente repartição dos imigrantes".

"Os imigrantes vieram para trabalhar", disse, salientando que, para o país, e "numa visão mercantilista", os estrangeiros "são um negócio lucrativo", porque contribuem cinco vezes mais do que retiram do estado social e executam trabalhos que os nacionais não querem.

"Se houver aqui portugueses candidatos a recolher frutos vermelhos em Odemira, inscrevam-se na fila", ironizou o antigo ministro socialista, recordando que há setores, como a agricultura, construção ou restauração, em que os estrangeiros representam mais de um quarto da força de trabalho.

António Vitorino considerou ainda que "muitos dos problemas de estigmatização resultam de desigualdades sociais em que os imigrantes são apresentados como problemas" e essas desigualdades "geram o sentimento de angústia" e de medo por parte dos cidadãos nacionais, com "medo do que desconhecem".

A luta contra a discriminação é "um combate cultural, mas também é um combate pela coesão da sociedade portuguesa", afirmou, admitindo que há "áreas particularmente sensíveis" como a saúde ou habitação.

Presente no debate, a presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Cyntia de Paula, criticou algumas juntas de freguesia, entre as quais a de Arroios, por, segundo disse, dificultarem os atestados de residência para estrangeiros e defendeu políticas mais globais de integração dos imigrantes.

No capítulo da habitação, a dirigente destacou as "dificuldades no acesso ao arrendamento" e defendeu que o poder político deve ter uma estratégia para combater a discriminação atual.

Quanto ao trabalho das associações de apoios aos imigrantes, Cyntia de Paula destacou o papel muitas vezes esquecido e deu o exemplo dos estrangeiros que estão acampados junto à Igreja dos Anjos.

"Se não fossem as associações, a situação ainda seria pior", afirmou.

Filipa Louro, do Serviço Jesuíta aos Refugiados, recordou que os imigrantes são contribuintes líquidos e não têm acesso a apoios antes de terem cumprido o seu processo de regularização.

Hoje em dia, "até para ter o número de segurança social não é fácil", o que "parece ser parte de uma política de limitar o acesso aos apoios sociais" para os imigrantes, afirmou.

Esta foi a segunda sessão temática da Assembleia Municipal subordinada ao tema da imigração, um pedido feito pelo grupo parlamentar do PAN.

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  • Anastácio José Marti
    27 set, 2024 Lisboa 11:42
    Prova provada da incompetência da atual vereadora do Pelouro da Habitação da CML que nunca nada provou saber para ocupar e ser remunerada por um cargo tão irresponsavelmente assumido em todo o mandato da atual Administração da CML. Não se venha desculpar. como o está a fazer, com a procura de casa pelos Imigrantes, quando ao fim de três anos e meio que dura o seu mandato até hoje, nem para a procura interna soube, ou quis mandar construir casas para os cidadãos de Lisboa que dessas casas necessitam, pois jamais pode alegar que a imigração também implica a existência de mais e melhores habitações para não defraudar aqueles e aquelas que nos procuram para viver, e qual foi a resposta desta vereadora ZERO. Para que serve esta vereadora que não constrói habitações a preços acessíveis para os lisboetas, para os nossos imigrantes e para os que precisam de ter acesso a uma primeira habitação para fazer ou refazer as suas vidas, e o que dizer dos sem abrigo e dos que sobrevivem nos Bairros da Serafina, Quinta do Ferro e da Liberdade que nem àgua potável têm em pleno século XXI? Que falta de vergonha, de brio profissional e de resposta a todas e cada uma das expetativas dos cidadãos de Lisboa que assim veem defraudadas as suas expetativas de terem acesso a algo que a Constituição lhes concede mas que esta vereadora sempre lhes negou.

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