30 out, 2021 - 14:14 • Anabela Góis
Conheci pessoalmente D. Basílio do Nascimento em março de 1999. Calhou chegar a Baucau num dia de intenso tiroteio, com as ruas cheias de polícias e militares indonésios.
D. Basílio do Nascimento acolheu-nos (a mim e a outros dois colegas) de sorriso no rosto, e com aquele ar sereno que nunca o abandonava, nem mesmo quando se encontrava em situações de grande tensão.
E como se sabe foram muitos os momentos difíceis que teve de enfrentar desde que regressou a Timor-Leste, incluindo a vaga de destruição e morte causada pelas milícias pró-indonésias que lhe queimaram a casa e o obrigaram a procurar refúgio na montanha, ao lado de centenas de outros timorenses anónimos.
Nunca, em momento algum, se recusou a falar aos jornalistas. Foi durante anos verdadeiramente a voz dos que não tinham voz.
Denunciava o que estava errado, chamava à razão os que se exaltavam, estava sempre disponível para o diálogo, ou, para uma simples conversa.
Ao longo dos anos tive o privilégio de o entrevistar várias vezes: recebeu-me em casa, falamos ao telefone ou nos estúdios da Renascença.
De todas as vezes a sua afabilidade era quase desarmante. Homem de grande carisma, o Bispo de Baucau vai ficar na história de Timor-Leste pelo papel que teve e vai, certamente, ficar no coração de todos os que com ele privaram.