Português vai percorrer 14 mil km de bicicleta elétrica para fazer África de uma ponta à outra
15 jun, 2023 - 08:20 • João Carlos Malta (texto), Eduardo Soares da Silva (infografia)
O fotojornalista Daniel Rodrigues começou a aventura na Cidade do Cabo, na África do Sul, e espera chegar ao Cairo, no Egito, dentro de seis a sete meses. Pelo meio, vai passar por 12 países e fazer milhares de quilómetros. Quer mostrar um outro continente africano, aquele que está a olhar para as alterações climáticas e para a necessidade de seguir o caminho da sustentabilidade.
Fazer África de lés-a-lés, fosse como fosse, já seria um desafio e tanto, mas Daniel Rodrigues quis aumentar o nível de dificuldade. Para isso, decidiu que o faria em cima de uma bicicleta elétrica num continente em que os problemas com eletricidade são comuns. A ideia é a de através do exemplo mostrar que mesmo nas circunstâncias mais difíceis é possível lutar pela sustentabilidade do planeta e promover ações concretas contra as alterações climáticas.
A jornada de Daniel, que começou no início desta semana na Cidade do Cabo, África do Sul, e acabará no Cairo, Egito, vai prolongar-se durante seis ou sete meses, num total de 14 mil quilómetros. Passará por 12 países.
Foi há mais de 30 anos com os filmes do Rei Leão, que via em cassetes VHS, que Daniel criou e alimentou a paixão por África. E se essa foi a semente do projeto, a vontade de o fazer foi espoletada por uma série de documentários de viagens do ator Ewan McGregor. O último relata uma grande viagem da Patagónia, na Argentina, a Los Angeles, nos Estados Unidos da América. A mota elétrica foi o meio de transporte do protagonista do icónico “Trainspotting”.
Aquilo ficou a fervilhar-lhe na cabeça, até que se deu o momento “eureka”. Queria juntar a necessidade de alertar para as alterações climáticas com a vontade de embarcar na aventura de passar mais de meio ano a percorrer o continente africano. Havia que encontrar um fator diferenciador e foi isso que fez.
“Embora o caminho seja famoso entre os ciclistas, nunca ninguém o tinha feito numa bicicleta elétrica. Nunca ninguém o fez, muito por causa de todas as peripécias e a burocracia que é trazer uma bicicleta para África”, começa por explicar Daniel, de 36 anos.
Ao apelo inegável da aventura juntou-se um propósito maior. “Queria fazer isto por ser uma coisa inédita, e também por atualmente, cada vez mais falarmos das alterações climáticas, da sustentabilidade e de termos que nos adaptar à mobilidade elétrica. Mas a verdade é que se fala muito, mas acaba por se fazer pouco”, critica o fotojornalista que em 2013 viu a vida mudar, quando ganhou o 1.º prémio da categoria de “Daily Life” do World Press Photo com uma imagem feita na Guiné-Bissau.
Meses a planear para tudo mudar
Até aterrar na Cidade do Cabo, Daniel passou por muitos meses de preparação e planeamento. Centenas de horas a antecipar as dificuldades que vai encontrar no terreno, reuniões com as empresas parceiras que vão financiar o projeto e também a necessidade de se preparar fisicamente para algo para que verdadeiramente nunca se está apto− fazer 14 mil quilómetros em cima de uma bicicleta.
Ponto por ponto, tudo estava preparado num documento detalhado. E de repente ficou tudo de pernas para o ar. Literalmente. A ideia era fazer a viagem do Cairo em direção à Cidade do Cabo, mas a menos de um mês de se lançar à estrada foi obrigado a mudar e inverter o percurso.
“Começou a guerra do Sudão, as fronteiras fecharam e não era possível passar para o sul. Ou seja, a três semanas de começar o projeto tive de inverter completamente toda a rota. Todos aqueles meses em que tinha planeado os pontos de carregamento e as etapas, tive que os rever no espaço de duas semanas”, descreve.
Algo que foi muito desafiante, até porque uma parte grande da preparação consistiu em encontrar pontos de carregamento durante o caminho. “Não queria dizer que quando lá chegasse, esses pontos realmente existissem, mas a ideia era de ter sete locais de carregamento por dia”, conta.
Não se pense, no entanto, que Daniel não tem prevista a existência de etapas sem acesso a carregadores elétricos. Isso acontecerá sempre, por exemplo, no deserto da Namíbia. São quatro dias no meio do nada, em que não vai ser possível carregar. “Vou ter de ter muito cuidado em termos da autonomia da bateria e gerir muito bem isso”, diz, acrescentando que o mesmo acontecerá na Tanzânia e no Quénia.


"Este projeto levou meses a preparar. A ideia era para começar no Cairo e ir para a Cidade do Cabo, mas começou a guerra no Sudão e deixou de se poder passar para o sul. A três semanas de começar tive de inverter toda a rota", Daniel Rodrigues, fotojornalista."
São dificuldades que não fazem esmorecer Daniel que quer incentivar as pessoas a aderirem à mobilidade elétrica. “Se eu conseguir atravessar África numa bicicleta elétrica, ou seja, reduzir a minha pegada ecológica, qualquer pessoa, em qualquer capital Europeia, quer em Lisboa, quer em Londres, quer em Madrid, também pode muito bem ir para o trabalho de bicicleta elétrica e acabar por não usar tanto o carro”, equaciona. “Está na altura de falar menos e agir”, pede o fotojornalista.
"O maior pesadelo"
Voltando à viagem, Daniel afirma que é importante ter um plano, mesmo que seja para depois não o cumprir, porque “África é muito incerta”. Tem programado os quilómetros que fará por dia, os tais pontos de carregamento, “mas a ideia também é ir um pouco à aventura”.
Aos 36 anos, está muito habituado a viagens de trabalho por vários continentes desde que o prémio internacional de fotografia o catapultou para colaborar com os jornais mais prestigiados do mundo, como o "New York Times". Estar sozinho não é uma novidade e desta vez vai novamente estar totalmente por sua conta. Não terá equipas de apoio no terreno.
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A exceção é a ajuda remota que terá para a bicicleta que levará para África. Quis que fosse portuguesa, feita a 100% em Portugal, para reduzir o impacto no ambiente. Essa empresa forneceu a Daniel o protótipo que, entretanto, lançou no mercado. A máquina tem uma centralina que poderá ser acedida remotamente. A fase embrionária de desenvolvimento da máquina faz com que tenha de ir com muito material suplente, como as correntes e as pastilhas.
Em toda a preparação desta empreitada, Daniel revela que o “maior pesadelo” foi o que poderia levar e o que não poderia levar.
“Não podemos esquecer que são seis a sete meses, são 14 mil quilómetros e vou de bicicleta. Não posso propriamente levar três malas com 100 quilos às costas”, lembra. Teve de pôr todo o material em quatro alforges num total de 40 quilos, “que eu até já acho que é muito”.
Ali têm de caber as câmaras fotográficas, as câmaras de vídeo, os microfones e os discos. Ficou pouco espaço para roupa. “Tive de cortar. Só trouxe dois calções, duas calças, duas t-shirt e dois casacos”, enumera.
“Tive mesmo de ser minimalista, de tentar trazer o mínimo possível, porque quanto mais peso trouxer, mais vou notar em termos de autonomia na bicicleta, além de que tenho que deixar espaço livre. Vai haver etapas em que tenho de levar comida porque não haverá onde comer”, lembra.
Crianças perigosas na Etiópia
Quando se pensa em passar mais de meio ano na estrada em África, uma das primeiras coisas que nos podem vir à cabeça são os perigos. Daniel desvaloriza-os, apesar de os conhecer. “É um pouco relativo. Na estrada, posso ter um acidente ou ser atropelado. Isso tanto pode acontecer em África, como pode acontecer na Europa”, avalia.
No entanto, há pontos no trajeto que o deixam apreensivo. Um deles é a Etiópia. “É muito conhecida dos ciclistas por causa das crianças que atiram pedras e que tentam enfiar paus nas rodas”, descreve.


"Em termos de perigo, a Etiópia é conhecida pelas crianças que atacam os ciclistas. Atira pedras e mandam paus para as rodas", Daniel Rodrigues, fotojornalista.
O que vai fazer quando isso acontecer? “Não sei. Quando chegar ao local é que verei o que vou fazer e vou tentar manter a calma”, antecipa.
Já em relação ao alojamento, afirma que 80% do tempo vai dormir numa tenda, apenas na África do Sul, por uma questão de maior comodidade, ficará em hotéis. “Neste momento, é aqui inverno e está muito frio”, sublinha.
As fronteiras em que tudo pode acontecer
Mas mais do que estas questões, há uma dificuldade que sabe que vai passar, muitas vezes, ao longo da viagem: atravessar fronteiras. Isso pode fazer com que o que está planeado fique apenas no papel. Não será estranho estar 15 dias a tentar entrar num país. Aliás, problemas burocráticos como este já começaram a acontecer. Na África do Sul, esteve três semanas à espera para conseguir tirar a bicicleta da alfândega. Faltava sempre qualquer coisa. No final, foi o dinheiro que resolveu a questão.
Daniel conta que tudo se pode complicar quando se traz um documento digital para entregar às autoridades. É oficial, mas há sempre a possibilidade de o elemento da segurança, ou agente policial, dizer que não reconhece o papel. E, nessa situação, pedem mais dinheiro. “Dizem que pode ser falso e pedem para pagar mais”, afiança.
Mas se mais à frente houver outro "checkpoint", o problema pode repetir-se. “No caso da Etiópia, agora estão a pedir 200% acima do valor da bicicleta”, declara.
“Temos de ter paciência e negociar para não pagar os 15 mil euros que pedem para entrar”, acrescenta.
Em África "o tempo é relativo"
Em relação ao tempo da viagem, os sete meses são mesmo apenas uma referência, até porque Daniel reconhece que em África “o tempo é relativo”. Vai depender das estradas, das peripécias nas fronteiras e, claro, de o plano de carregamento das baterias ser realizado com sucesso. Nada que preocupe Daniel. “Isto não é uma corrida”, sustenta.
Daniel confidencia que além do desafio que, por si só, é fazer milhares de quilómetros de bicicleta, este será “o projeto de uma vida”. Sempre sonhou conhecer o continente de uma ponta à outra, e agora pode fazê-lo com uma máquina fotográfica na mão. Isto para documentar que também em África há muitos projetos relacionados com sustentabilidade e que podem ajudar o planeta.
“Além da EDP − que é uma das empresas que patrocina a viagem − e os projetos que tem em África, vou fotografar locais que trabalham com energias limpas e outras coisas que possam aparecer pelo caminho ligadas à sustentabilidade. Um deles é um safari todo feito com recurso à mobilidade elétrica”, identifica.


"O meu maior pesadelo foi o que podia levar e o que não podia levar. Não posso levar 100 quilos às costas", Daniel Rodrigues, fotojornalista.
De uma coisa não tem dúvidas: “África é uma grande paixão que estará sempre ligada à história da minha vida“.
Neste novo capítulo, diz não temer a dureza física do percurso e acredita que serão a força mental e o desejo de cumprir o objetivo que o levarão ao desejado destino. “Quero chegar ao Cairo e dizer: 'Consegui'”, remata.
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